segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

aquela criança



Eu sabia o que era um sorriso, só não conseguia sorrir. Eu sabia que havia amor, só não sabia o que era ser amado e como amar. Eu sabia que a guerra tinha um fim, só não era capaz de baixar as armas e de deixar de me proteger. Eu sabia que precisava de fugir, só não sabia para onde ir. Eu sabia ajudar, só não percebi que era eu quem precisava de ajuda. Eu sabia cuidar, só não me lembrei de mim. Eu sabia que existia vida, só não sabia como a viver. Eu sabia que tinha que viver o presente, só não sabia como esquecer o passado.

Recordo-me daquela criança com um turbilhão de sentimentos. Uma voz tremida. Um corpo encolhido. Uma alma inquieta. Sentia-se tão só, tão frágil, tão no limite. Punha em causa um direito que parecia ter fugido das suas mãos sem se ter dado por isso, o direito de viver e de ser feliz. Nos momentos de desespero tentou desistir. Cometeu o maior erro, abandonou-se. Aquela criança não entendia que por mais que o mundo nos vire as costas, a vida continua. Mas era apenas uma criança... Por mais efémero que tenha sido, essa criança chegou a ter um tempo para ser criança.

Aquela criança [...] era eu.
E uma parte dessa criança, ainda permanece...