domingo, 23 de janeiro de 2011

A noite de hoje, o dia de amanhã




Não quero adormecer.
Quero viver a noite.

Deixem-me me alimentar com este silêncio e com esta tranquilidade que só existe durante a noite. Deixem-me ficar aqui em paz porque amanhã não vou querer sair à rua. Não, amanhã não vou querer abrir a janela, nem acender a luz. Deixem-me espreitar pelos buracos dos estores e ver a lua reflectida nas poças de água. Deixem-me sonhar agora e tirar os pés do chão. Deixem-me abrir a janela e respirar vagarosamente enquanto posso. Deixem-me ser da noite porque amanhã as pessoas vão acordar, vão sair à rua e sujar o dia. Amanhã as pessoas não vão querer voar. Amanhã as pessoas vão querer (re) começar a guerra de ontem ou inventar a guerra de amanhã. Eu vou acordar enrolado no cobertor sem vontade de fazer qualquer tipo de movimento, deixar-me colado ao colchão e esperar pelo anoitecer. Que este frio que agora sinto congele o meu pensamento e faça com que eu não acredite que não posso viver o dia da mesma forma que vivo a noite.

Mas por enquanto,
quero a noite de hoje.
Não quero o dia de amanhã.

1 comentário:

  1. "Deixem-me sonhar agora e tirar os pés do chão. Deixem-me abrir a janela e respirar vagarosamente enquanto posso." - Parte preferida.

    Adorei o texto :)

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